A MENTE QUE SE ABRE A UMA NOVA IDEIA JAMAIS VOLTARÁ AO SEU TAMANHO ORIGINAL.
Albert Einstein

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um tipo de cientista sem exemplo na história

ARTIGO /
José Ortega y Gasset* //
O filósofo José Ortega y Gasset nasceu em Madri, no dia 9 de maio de 1883. Ainda criança, foi enviado para o colégio jesuíta de Málaga. Graduou-se e doutorou-se em Filosofia na Universidade Central de Madri, em 1904, com breve passagem pela Universidade de Deusto (Bilbao). Teve influência filosófica da escola de Marburgo, no período vivido na Alemanha. Em 1910, obtém a cátedra de Metafísica na Universidade Central de Madri. Em 1914, publica seu primeiro livro, Meditaciones del Quijote. Em 1917, torna-se colaborador do jornal El Sol, onde publicaria La rebelión de las massas (1930). Funda a Revista de Occidente em 1923. Após desentendimento com a ditadura espanhola, exila-se na Argentina. Durante seu exílio, de 1936 a 1945, em plena Guerra Civil Espanhola, Ortega y Gasset passou por um longo período de silêncio político em relação ao seu país. A alternância entre o engajamento e o distanciamento crítico marca a sua existência. Regressa à Espanha em 1948 e, em 1955, lhe é diagnosticado um câncer e ele falece no dia 18 de outubro daquele ano.
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“A especialização começa, precisamente, num tempo que chama homem civilizado ao homem “enciclopédico”. O século XIX inicia seus destinos sob a direção de criaturas que vivem enciclopedicamente, embora sua produção tenha já um caráter de especialismo. Na geração seguinte o equilíbrio se desfaz e a especialidade começa a desalojar, de dentro de cada homem de ciência, a cultura integral. Quando por volta de 1890 uma terceira geração assume o comando intelectual da Europa, encontramo-nos com um tipo de cientista sem exemplo na história. É um homem que, de tudo quanto há a conhecer para tornar-se um homem de saber e discernimento, conhece apenas uma ciência determinada, e ainda dessa ciência só conhece bem a pequena porção em que ele é ativo investigador. Chega a proclamar como uma virtude o não tomar conhecimento de quanto fique fora da estreita paisagem que especialmente cultiva, e denomina diletantismo a curiosidade pelo conjunto do saber.
O caso é que, recluso na estreiteza de seu campo visual, consegue, com efeito, descobrir novos fatos e fazer avançar o pedaço de ciência que ele conhece, e com ela a enciclopédia do pensamento, da qual ele é conscientemente ignorante. Como foi e é possível coisa semelhante? Porque convém repisar a extravagância deste fato inegável: a ciência experimental progrediu em boa parte mercê do trabalho de homens fabulosamente medíocres, e menos que medíocres. Quer dizer, que a ciência moderna, raiz e símbolo da civilização atual, deu guarida dentro de si ao homem intelectualmente médio e lhe permite operar com bom êxito. A razão disso está no que é, ao mesmo tempo, vantagem maior e perigo máximo da ciência nova e de toda civilização que esta dirige e representa: a mecanização. Uma boa parte das coisas que é preciso fazer em física e em biologia é faina mecânica de pensamento que pode ser executada por qualquer pessoa. Para os propósitos de inúmeras investigações é possível dividir a ciência em pequenos segmentos, encerrar-se em um deles e desinteressar-se dos demais. A firmeza e exatidão dos métodos permitem essa transitória, mas efetiva e real desarticulação do saber. Trabalha-se com um desses métodos como com uma máquina, e nem sequer é forçoso para obter abundantes resultados possuir idéias rigorosas sobre o sentido e fundamento deles. Assim, a maior parte dos cientistas propelam o progresso geral da ciência encerrados no nicho de seu laboratório, como a abelha no seu alvéolo.
Por isso cria-se uma casta de homens sobremodo estranhos. O investigador que descobriu um novo fato da Natureza tem por força que sentir uma impressão de domínio e de segurança em sua pessoa. Com certa aparente justiça se considerará como “um homem que sabe”. E, com efeito, nele se dá um pedaço de algo que, junto com outros pedaços não existentes nele, constituem verdadeiramente o saber. Essa é a situação íntima do especialista, que nos primeiros anos deste século [séc. XX] chegou à sua mais frenética expressão. O especialista “sabe” muito bem seu mínimo rincão de universo; mas é radicalmente ignorante de todo o resto.
Aqui temos um preciso exemplo desse estranho homem novo que eu tentei, por uma e outra de suas vertentes e aspectos, definir. Eu disse que era uma configuração humana sem igual em toda a história. O especialista serve-nos como um contundente exemplo dessa nova espécie, expondo com clareza todo o radicalismo de sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em sábios e ignorantes, em mais ou menos sábios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista não pode ser enquadrado em nenhuma dessas duas categorias. Não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é “um homem de ciência” e “conhece” muito bem sua porciúncula de universo. Devemos dizer que é um sábio-ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que é alguém que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua área de atuação é um sábio. E, com efeito, esse é o comportamento do especialista. Em política, em arte, nos usos sociais, nas outras ciências, tomará posições de primitivo – e ignorantíssimo; mas as tomará com energia e auto-suficiência…”
*Trecho retirado do capítulo “La Barbárie Del ‘Especialismo’”, do livro Revolta das massas de José Ortega y Gasset.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A velocidade do neutrino

ARTIGO /
Mario Novello* //
Diferentemente de Pinóquio, que via seu nariz crescer a cada mentira que contava, o Barão de Munchausen tornou-se universalmente conhecido graças não às mentiras que contava, mas, sim, devido às suas extravagâncias. As histórias que Munchausen queria fazer passar como verdadeiras – com uma aparência fantástica – tinham sempre um fundo de razoabilidade. No entanto, uma reflexão ulterior sobre sua descrição de acontecimentos extraordinários, logo nos levava a ponderar sobre a impossibilidade de tais fatos serem reais.
Ao refletirmos sobre algumas informações que relatam a atividade cientifica de hoje, é quase impossível de resistir à ideia de que estamos vivendo em uma era na qual o Barão se sentiria extremamente confortável e, possivelmente, seria até mesmo reconhecido como possuidor de qualidades notáveis de percepção e intuição. Dentre essas, a mais exuberante seria sua descrição daquilo que alguns cientistas, usando diversos meios de comunicação, estão alardeando como descobertas notáveis.
Parece que a imprensa mundial e uma larga faixa daquilo que se costuma chamar o establishment cientifico (isto é, os meios de contato entre os cientistas e a sociedade) estão fazendo o Barão se sentir totalmente à vontade. Nesse comentário, irei simplesmente apontar algumas dessas questões e deixar o leitor tirar suas conclusões sobre se esse meu argumento é possível de ser sustentado ou se eu também estaria seguindo os passos do Barão e exagerando em minha interpretação.
Irei comentar somente três exemplos recentes, a saber, o Bóson de Higgs, a aceleração do Universo e a velocidade do neutrino. O que esses três processos poderiam ter em comum? Iremos ver que o que os une é o exagero açodado das conclusões sobre sua posição no conhecimento científico e a precipitação sensacionalista que os levou a ser noticia nos principais cotidianos nacionais e internacionais produzindo, cada um deles, uma “revolução na ciência”. Aqui, iremos nos limitar a apontar algumas questões que sustentam essa interpretação de açodamento. Uma análise mais especifica e mais detalhada de cada um desses exemplos serão matéria de números subsequentes de Cosmos e Contexto.
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3 – A velocidade do neutrino
OS NEUTRINOS DO MÚON SÃO PARTÍCULAS MAIS RÁPIDAS QUE A LUZ?
E. GIANNETTO, G.D. MACCARRONE, R. MIGNANI and E. RECAMI
Abstract: Recentemente alguns trabalhos apareceram e são notáveis pois chamam a atenção para resultados experimentais interessantes relacionados à velha questão se os neutrinos são superluminais (ou não). Estes resultados são complementados então, do ponto de vista teórico, e algumas predições experimentais são adicionadas de modo que possam ser testadas, especialmente com oscilações de neutrinos.
Em 1986, em um artigo que ficou esquecido pela comunidade científica, Enrico Giannetto e colaboradores argumentaram que o neutrino – uma partícula elementar com propriedades muito especiais – poderia ser identificado como um tachyon, isto é, uma partícula que viaja com velocidade superior a da luz. Naquele artigo (cujo titulo é Are muon neutrinos faster-than-light particles?) e em subsequentes, Recami mostrou como essa característica do neutrino, se verdadeira, não invalidaria a teoria da relatividade especial. Ela seria nada mais do que uma consequência natural dentro dessa teoria.
No dia 23 de setembro de 2011, o jornal do CERN anunciou um resultado notável e alertou os jornalistas para a sua importância. Leia o que ali se escreveu:
Experimento OPERA relata anomalia no tempo de voo de neutrinos do CERN até Gran Sasso
Genebra, 23 de setembro de 2011. O experimento OPERA, que observa um feixe de neutrinos emitido do CERN, localizado a 730 Km de distância no Laboratório INFN Gran Sasso, na Itália, apresentará novos resultados em um seminário no CERN nesta tarde, às 16h (Horário de Verão da Europa Central). Este seminário será transmitido em http://webcast.cern.ch. Jornalistas que queiram fazer perguntas deverão fazê-las via Twitter, usando a hash tag #nuquestions, ou via os canais de imprensa usuais do CERN.
No dia 25 de outubro de 2011, Hervé Bergeron, físico da Universidade de Paris, apresenta uma crítica ao modo de interpretação dos dados observacionais. Segundo ele, uma análise desses dados parece apontar que o resultado apresentado não implicaria necessariamente que teria sido detectado que a velocidade do neutrino tivesse superado a do fóton. Segue abaixo o titulo desse artigo e seu resumo.
SOBRE AS QUESTÕES AS ENVOLVIDAS NA ANÁLISE DE DADOS DO EXPERIMENTO OPERA
H. BERGERON
Abstract: Os autores do experimento OPERA [ArXiv: 1109.4897] afirmam que “a medida indica um tempo de chegada antecipado dos neutrinos do múon do projeto CNGS (CERN neutrinos to Gran Sasso) com relação ao calculado assumindo a velocidade da luz no vácuo”. Nesta nota analisamos os aspectos estatísticos dos resultados experimentais apresentados em [ArXiv: 1109.4897], assumindo que erros sistemáticos escondidos não existem. Devido a vínculos estatísticos, mostramos (através de dois métodos diferentes) que os dados experimentais apresentados em [ArXiv: 1109.4897] não permitem concluir sem ambiguidade a existência do comportamento superluminal dos neutrinos. O problema está essencialmente na interpretação dos fatos e não na veracidade deles.
Ainda nesse mesmo meio de comunicação entre cientistas encontramos o artigo de Wolfgang Kundt:
VELOCIDADE DOS NEUTRINOS DO CERN PUBLICADO EM 22/o9/2011. SERIA O EFEITO SUPERLUMINAR RELATADO DEVIDO AO NEGLIGENCIAMENTO DA RELATIVIDADE GERAL?
W. KUNDT
Abstract: Durante os anos de 2009 a 2011, feixes de neutrinos foram enviados repetidamente do CERN em direção a um detector no túnel de Gran Sasso, na Itália, a uns 4 graus ao sul e 7 graus a leste do CERN, a uma distância de 730.5 km, no formato de pequenos conjuntos de partículas. O tempo de voo deles (2.5 mseg) foi medido com uma acurácia alta (nseg) com relógios de césio [3]. Notavelmente, a equipe do CNGS encontrou um déficit de 61 nseg comparado com a propagação à velocidade da luz, e concluíram que estavam à velocidades superluminais da ordem de 10-4.6. Nesta comunicação, argumentarei que este é o primeiro experimento para testar a teoria de Einstein no campo gravitacional (fraco) da Terra, com o resultado de que os neutrinos propagaram-se com velocidade (exatamente) luminal.
O que podemos concluir dessas argumentações?
1. Que a interpretação dos dados observacionais, posta em cheque, merece uma crítica e resposta imediata;
2. Se a interpretação dos responsáveis pela experimentação OPERA estiver correta, a análise das suas consequências deve ser efetivada à luz de interpretações como aquela de Recami e/ou outras semelhantes.
Talvez, o mais importante seja aceitar que a experiência em questão ainda está por ser completamente entendida e, portanto, deve se manter nas discussões de laboratório. Ou, se a imprensa convencional – isto é, não científica – pretender tornar público esse resultado, que o faça. Mas acrescente as dúvidas e contradições típicas da atividade científica.
Dessa brevíssima análise, creio que segue uma questão. A atividade científica merece publicidade. Mais do que isso, a sociedade exige que se noticie o que ocorre nos laboratórios por ela financiados. No entanto, exagero e açodamentos devem ser evitados, sob pena de que, assim como os políticos já o conseguiram, os cientistas também comecem a perder a credibilidade.
P.S.: Os artigos referentes ao Bóson de Higgs (M. Novello), a aceleração do universo (D. Wiltshire) e a velocidade do neutrino (entrevista com E. Recami et al), aparecerão em números subsequentes de Cosmos e Contexto.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A aceleração do universo

ARTIGO /
Mario Novello* //
Diferentemente de Pinóquio, que via seu nariz crescer a cada mentira que contava, o Barão de Munchausen tornou-se universalmente conhecido graças não às mentiras que contava, mas, sim, devido às suas extravagâncias. As histórias que Munchausen queria fazer passar como verdadeiras – com uma aparência fantástica – tinham sempre um fundo de razoabilidade. No entanto, uma reflexão ulterior sobre sua descrição de acontecimentos extraordinários, logo nos levava a ponderar sobre a impossibilidade de tais fatos serem reais.
Ao refletirmos sobre algumas informações que relatam a atividade cientifica de hoje, é quase impossível de resistir à ideia de que estamos vivendo em uma era na qual o Barão se sentiria extremamente confortável e, possivelmente, seria até mesmo reconhecido como possuidor de qualidades notáveis de percepção e intuição. Dentre essas, a mais exuberante seria sua descrição daquilo que alguns cientistas, usando diversos meios de comunicação, estão alardeando como descobertas notáveis.
Parece que a imprensa mundial e uma larga faixa daquilo que se costuma chamar o establishment cientifico (isto é, os meios de contato entre os cientistas e a sociedade) estão fazendo o Barão se sentir totalmente à vontade. Nesse comentário, irei simplesmente apontar algumas dessas questões e deixar o leitor tirar suas conclusões sobre se esse meu argumento é possível de ser sustentado ou se eu também estaria seguindo os passos do Barão e exagerando em minha interpretação.
Irei comentar somente três exemplos recentes, a saber, o Bóson de Higgs, a aceleração do Universo e a velocidade do neutrino. O que esses três processos poderiam ter em comum? Iremos ver que o que os une é o exagero açodado das conclusões sobre sua posição no conhecimento científico e a precipitação sensacionalista que os levou a ser noticia nos principais cotidianos nacionais e internacionais produzindo, cada um deles, uma “revolução na ciência”. Aqui, iremos nos limitar a apontar algumas questões que sustentam essa interpretação de açodamento. Uma análise mais especifica e mais detalhada de cada um desses exemplos serão matéria de números subsequentes de Cosmos e Contexto.
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- A aceleração do Universo
O prêmio Nobel de física de 2011 foi dividido, metade dado a Saul Perlmutter, a outra metade dada conjuntamente a Brian P. Schmidt e Adam G. Riess “pelo descobrimento da expansão acelerada do Universo através da observação de supernovas distantes”.
[Citado da página do prêmio Nobel]
A observação sobre propriedades peculiares de estrelas Supernovas certamente produziu uma série de questões excitantes para a Astrofísica e a Cosmologia. No entanto, essas observações não são suficientes para a demonstração de que o Universo está sofrendo uma expansão acelerada. Com efeito, há várias questões que precisam ser esclarecidas antes de aceitarmos como verdadeira essa possibilidade.
Somente para dar um exemplo, podemos considerar a proposta, bastante viável, de David Wiltshire (que desenvolverá essa argumentação em um artigo na edição de fevereiro de 2012 de Cosmos e Contexto), que consiste em considerar a inclusão de uma energia escura, caso exista, argumentando que ela nada mais seria do que um efeito aparente que decorre da calibração de certos parâmetros cosmológicos na obtenção de médias quando em presença de curvatura espacial e de gradientes de energia gravitacional que aumentam muito com o crescimento de inomogeneidades em épocas recentes. Durante o último Marcel Grossmann Meeting, realizado em 2009, em Paris, Wiltshire apresentou essa argumentação para a comunidade de astrofísicos. Estavam presentes aproximadamente 500 cientistas. Houve críticas e discussões como em toda palestra, mas ninguém argumentou da impossibilidade desse cenário.
O simples fato de que existe em discussão uma proposta que tem embasamento credível é suficiente para que não consideremos a aceleração do universo como um fato científico, mas somente como uma possibilidade dentro de um cenário teórico coerente. Ainda é pouco para garantir seu status como “verdadeiro”. Muito menos para que conquiste um status tão grande que um prêmio de caráter internacional lhe seja atribuído.